h1

El sitio Clube de Jazz de Brasil publicó una nota recordando al Jazz Club de Buenos Aires

septiembre 22, 08

El completísimo sitio brasileño Clube de Jazz publicó una nota sobre la costumbre de escuchar jazz en Buenos Aires. Allí realizó un -para nosotros- emotivo recuerdo de nuestro Jazz Club. Gracias!!!

Lo que sigue es el texto completo:

O bom costume de ouvir jazz na Argentina

Em que pese as mudanças na economia argentina, para Paulo César Nunes, nunca houve mudanças radicais no bom hábito de se ouvir jazz, principalmente o feito em casa, nos jazzclubs porteños.

04/09/2008 – Paulo Cesar Nunes

No verão de 1999 os argentinos sofreram o primeiro baque econômico da era da convertibilidade: a desvalorização do real! Dias depois de assumir para seu segundo mandato FHC descongelou a economia brasileira, a cotação real dólar pulou de 1,10 para 2,20 em questão de dias, com oscilações loucas. Muitos turistas brasileiros cancelaram seus pacotes a Buenos Aires, Bariloche e outras menos visitadas. Os comerciantes e hotéis portenhos foram os primeiros a sentir a falta da plata brazuca. De fato, com a moeda estável os vizinhos brasileiros enchiam as ruas de Buenos Aires, falava-se Português na calle Florida! Mas a desvalorização da moeda espantou os vizinhos, e acarretou muitos problemas entre as empresas do Mercosul em operação na Argentina. Ainda assim o país tinha a economia dolarizada, o peso era uma moeda forte. Um país que consome cultura, seja de que nacionalidade for, com muita gente estudando música, filhos de músicos famosos, futuros músicos vivendo no exterior, respirando outra música. Uma geração pronta para aparecer, ávida por mostrar sua arte.

Meus amigos cariocas Rose e Pedro me levaram para conhecer o Jazz Club. Esta casa funcionava num subsolo do famoso Paseo La Plaza, um complexo de lojas, teatros, bares e restaurantes a que se tem acesso pelas calles Corrientes, Montevideo e Sarmiento. Um berço para muita gente boa que hoje anda tocando pelo mundo afora. Neste lugar conhecemos muitos artistas, tivemos o prazer de acompanhar a evolução de talentos, o amadurecimento de grupos e estilos e para o bem de todos a grande maioria deles segue com seu trabalho. Sem saber exatamente o que tocavam as atrações dos fins de semana nós nos fartamos de assistir aquela gente, reservando mesas sem a menor orientação ou critério. Algumas vezes, tinha latin jazz e grupos de fusion.

O grupo Escalandrum dava seus primeiros passos e já tinha seu primeiro disco, “Bar los Amigos”, que começa com uma leitura espetacular de “Esqualo”, composição de vovô Piazzolla! Sim, o baterista e líder deste grupo é um músico muito requisitado hoje, um artista muito querido no meio, Daniel “Pipi” Piazzolla, o neto do grande Astor! A formação de hoje difere da primeira não só nos músicos mas na música, que evoluiu, diminuindo a latinidade, ganhando complexidade, mantendo os deliciosos improvisos, seis virtuosos com muito material autoral e algumas peças de Piazzolla, em belos arranjos do pianista Nicolás Guerschberg. Este músico tem total autoridade, já que também integra uma formação de tango, o La Camorra. As composições são de Nicolás, do saxofonista tenor Damien Fogiel e do contrabaixista Mariano Sivori. O grupo se completa com Gustavo Musso, sax soprano e Martin Pantyrer, clarinete. Todos eles tem trabalhos paralelos e juntos são um dos grupos mais respeitados de lá. Cabe aqui um parêntesis: o baixista Guido Martinez, que tocou no período inicial desta banda, é um músico refinadíssimo, a quem assistimos muitas vezes em diversas formações. Transita pelo latin jazz e pela bossa nova com muita facilidade.

Ainda no Jazz Club conhecemos a cantora Laura Hatton, americana filha de pais argentinos, que nos surpreendeu com um set no qual incluiu três canções de Ivan Lins, além de uma lista de standards que interpretou maravilhosamente. Ela estava acompanhada por um quarteto liderado pelo guitarrista Rodolfo Gorosito, seu marido e diretor musical. Hoje eles seguem com nova formação que inclui o formidável contrabaixo de Alfredo Remus, um veterano de muita estrada, principalmente na Europa – tocou com Tom Jobim em Roma, 1974, o que encerra qualquer discussão. Foram muitas noites de relax ouvindo a Laura!

Entre dezenas de artistas devemos destacar as cantoras Marina Rama e Ludmila Fernandez, o contrabaixista Fernando Galimany, o pianista uruguaio Ricardo Nolé, o grupo de fusion El Ghetto, o baterista Sebastian Peyceré, o guitarrista Ernesto Dmitruk, o saxofonista Ricardo Cavalli, a cantora carioca Adriana Rios, o flautista Alejandro Santos, e uma especial menção a um portenho cheio de bossa, o Beto Calleti. Este músico, não só fala e canta em português como também compõe! Seus discos sempre tem convidados brasileiros, mas o legal mesmo é assistir a um show dele. Este ano esteve no Rio, em duo com o pianista Marvio Ciribelli, com quem depois tocou em Buenos Aires, em março deste ano. Seguramente uma prova do quão respeitada é a música brasileira no exterior. Aliás, a única concessão de estilo que observamos no Jazz Club, a bossa nova de Beto e do sensacional violonista Agustin Pereyra Lucena.

Os tempos de economia dolarizada propiciaram a vinda de muitos artistas estrangeiros. Pelo menos uma vez por mês tínhamos alguém de Chicago tocando com músicos locais no extinto Blues Special Club, nomes como John Primer, Billy Branch, Jimmy Dawkins, Dave Myers, Eddie C Campbell, Lurie Bell, Carlos Johnson, Eddie King, Phil Guy, Little Mack Simmons, e por aí vai. No Sheraton tivemos um ótimo ciclo de jazz que trouxe Michael Brecker, Marcus Miller, Nicholas Payton, Lee Konitz, Chucho Valdés, Kenny Barron e Trio da Paz, entre outros, ciclo com freqüência de um show por semana, ou a cada duas semanas. No Hotel Bauen tinha uma ótima casa, o Oliverio, onde vimos uma apresentação antológica do Dave Holland Quintet, com destaque para o sax tenor de Chris Potter. Este mesmo grupo tocou dois anos depois no Coliseo, onde também assistimos John Scofield e Ron Carter. No Gran Rex tivemos Keith Jarret, Diana Krall e Naná Vasconcelos, mas este fantástico lugar também é palco para João Bosco, Madredeus, Luis Salinas, Jethro Tull e João Gilberto. O som é espetacular, o melhor de todos.

Dois eventos tiveram um peso importante para o costume argentino de consumir cultura, ambos no segundo semestre de 2001: o atentado de 11 de setembro e a renuncia do então presidente Fernando de la Rua, depois de muita pressão, choques, saques, estado de sítio e fuga de capital. A junta que assumiu desvalorizou a moeda pondo fim a dez anos de paridade. Alguns shows internacionais foram cancelados, mas esse quadro foi benéfico para a proliferação de atrações nacionais. Na verdade o argentino se voltou mais para seus próprios valores , os músicos já estavam quase todos lá mesmo, aos quais se juntaram recém chegados do exterior. As casas passaram a realizar eventos, portanto continuou o bom hábito de jantar com música.

Lembramos uma casa bem legal, o Jazz & Blues, de Belgrano, zona norte de Buenos Aires. Funcionava na 3 de Febrero, um casarão adaptado, como varios outros lugares que visitamos. Estivemos lá num ciclo de quatro fins de semana, no qual a banda local, o Jazz 4, do saxofonista Gustavo Firmenich, tinha como convidado o guitarrista Walter Malosetti, um mestre da semiacústica. Este senhor faz parte da historia do jazz argentino, tem uma sólida carreira com muitos shows internacionais. É pai do baixista Javier Malosetti, também muito experiente e que tem a carreira ligada a grandes nomes do rock argentino, Luis Alberto Spinetta um dos mais importantes. Tivemos o prazer de estar em shows nos quais pai e filho tocaram juntos, um deleite que de vez em quando se permitem, quando os compromissos abrem espaço. Walter, assim como seu filho, é um gigante da música argentina, e quem puder estar num show dele nem tenha dúvida da escolha!

Lá atrás mencionamos um grupo de fusion, o El Ghetto, que tinha como trompetista um músico diferenciado, Juan Cruz de Urquiza. Este monstro integrou o Quinteto Urbano, sem dúvida uma das formações mais importantes do jazz argentino contemporâneo: Diego Schissi, piano, Guillermo Delgado, contrabaixo, Oscar Giunta, bateria e Rodrigo Dominguez, sax, além do próprio Urquiza. Todos são fantásticos e tocaram por cinco anos antes de decidirem seguir por caminhos separados. Já conhecemos Rodrigo, da entrevista postada no mês passado. Ele e Guillermo já estiveram tocando no Brasil. Oscar vem de uma família de músicos – seu pai, Oscar Giunta, é 2º contrabaixista da Sinfônica de Buenos Aires, integrou o famoso Quinteto Real, grupo de tango do maior pianista da historia do gênero, Horacio Salgan, e de vez em quando toca jazz, com o filho, ou folclore, com o sensacional pianista Manolo Juarez! Uma pena, o Quinteto Urbano não segue junto, mas sempre os vemos tocando em shows uns dos outros.

Hoje, a economia argentina está mais equilibrada e o fortalecimento do real leva outra vez muitos turistas brasileiros, os quais podem conhecer alguns dos lugares e músicos que estamos apresentando no nosso papo. O intercambio de artistas de diversas nacionalidades bem como o repatriamento de quem vivia fora vem ocorrendo com bastante freqüência, mas vamos deixar este tema para a próxima conversa.

Pequena Seleção de Cds

Escalandrum
Bar los Amigos / Estados Alterados / Misterioso
Laura Haton
Amo el Jazz / Laura / Jazz y Otras Yerbas
Ludmila Fernandez
Ahora es el momento / Diverso
Ricardo Nolé
De Profundis / Interiores
Marina Rama
The Blessing
Sebastian Peyceré
En Que Sentido
Enesto Dmitruk
Cuatro Corazones / Por la Noche
Ricardo Cavalli
La Entrega / Súndaram
Alejandro Santos
5 Carnavales 4 / Adoquines y Reflejos Nocturnos
Beto Caletti
Eu quero um samba / Travessia Brasileira / Notorious En Vivo / Esquinas
Agustyn Pereira Lucena
A. P. L… / La Rana / Puertos de Alternativa / Miradas
Walter Malosetti
Tributo a Django Reinhardt / Gramma / Relax / Palm
Javier Malosetti
Villa / Spaghetti Boogie / Onix / Niño
El Ghetto
Fauna Nocturna
Juan Cruz de Urquiza
De Este Lado / Vigilia
Quinteto Urbano
Quinteto Urbano / Jazz Contemporâneo Argentino II / En Subida
Rodrigo Domínguez
Tonal

Anuncios

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s

A %d blogueros les gusta esto: